Bacharel: quando uma história de abandono ganha o final feliz
Adotado pelo IHVET, com apoio da UCS, cãozinho se tornou mascote no ambiente acadêmico
“O silêncio vale mais que mil palavras”. Quem já não ouviu esse provérbio popular de autoria desconhecida, atribuído a certas situações em que ficar calado pode comunicar algo muito mais sincero e impactante que qualquer discurso? Um mero olhar pode dizer muito ou até impulsionar atitudes. Como aconteceu com um colaborador da Universidade de Caxias do Sul que, de tanto assistir ao descaso e maus-tratos de uma vizinha com o seu animal de estimação, perguntou se ela não teria interesse em doá-lo.
Foi assim que o cãozinho caramelo – nome popular conferido aos sem raça definida (SRD) – chegou ao Instituto Hospitalar Veterinário (IHVET/UCS), em dezembro de 2025. Na ocasião, o colaborador procurou a diretora do espaço, Renata Demori, para saber como poderiam proceder com aquele cachorrinho assustado e inseguro. “Ele carregava, nas marcas e no comportamento, o medo de quem havia sofrido muito, mas, com cuidado, paciência e, principalmente, amor, fomos descobrindo um novo ‘ser’: feliz, esperto, inteligente, obediente e profundamente amável”, lembra Renata, que não demorou a tornar-se sua tutora legal e trazê-lo para as dependências do IHVET, com a concordância da Universidade.
Hoje, ele tem cantinho próprio junto à sala da direção, onde dorme, faz suas refeições e conta com todos os cuidados de higiene, saúde e muito carinho. Esse é o Bacharel! Em nada lembra o animalzinho que sequer latia e não queria interagir com ninguém. Hoje, tornou-se, na linguagem dos “colegas de trabalho”, um verdadeiro anjo de quatro patas. “Ele não é apenas nosso mascote. Bacharel transforma nossos dias, desperta sorrisos, leva alegria às equipes, tutores e à comunidade acadêmica”, diz Renata. “Bacharel contribuiu para meu entrosamento na Universidade, pois as pessoas me associavam como a colega que cuidava do cãozinho e o conduzia pelos diferentes setores do campus”, completa Josiane Gomes Padilha, que ingressou como assistente administrativa do IHVET no mesmo período em que Bacharel ganhou sua nova casa.
O nome sugestivo, aliás, foi escolhido pelo público a partir de votação aberta na rede social do Instituto. Já familiarizado com a rotina universitária, ele é referência no projeto homônimo desenvolvido por Josiane desde maio de 2026, que prevê a visita do mascote aos diferentes setores da Instituição, duas vezes por semana, mediante agendamento prévio e permanecendo um dia no local. Na mochila de Bacharel estão os potinhos de água e alimento, com ração adequada, e uma cartinha-surpresa endereçada à equipe que vai recepcionar o “ilustre hóspede”. Na correspondência que os colegas descobrem ao abrir a mochila, Josiane sempre inclui uma mensagem motivacional proveniente do livro Café com Deus Pai, do pastor Júnior Rostirola, além de algumas palavras afetuosas e de agradecimento, como se fossem ditas pelo próprio Bacharel. “Ele tem o dom de unir as pessoas, independentemente da faixa etária, dos cargos que ocupam ou do senso de humor. Na hora da foto, todos se aproximam”, destaca Josiane, natural de Selbach, mas já se considerando uma filha de Caxias do Sul, onde reside há mais de 20 anos.

Pertencimento
Estudos recentes analisaram o impacto de ter um animal de estimação para a saúde física e mental, tendo em vista que a relação com os pets pode aliviar os sintomas da ansiedade, depressão e estresse. O tema ganhou novos significados quando, a partir de 26 de maio de 2026, a atualização da NR-1 mudou as regras da Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil. A diretriz do Ministério do Trabalho e Emprego agora exige que as empresas incluam os riscos psicossociais em suas estratégias de gerenciamento de riscos ocupacionais.

Neste contexto, e de forma inusitada, a chegada de Bacharel imprimiu leveza aos ambientes profissionais e acadêmicos, em meio aos compromissos e à rotina de professores, estudantes e funcionários. “Por onde passa, ele muda a cara das pessoas. Se alguém está preocupado por qualquer motivo ou concentrado em suas tarefas, Bacharel quebra o gelo e confere um novo ânimo”, revela Josiane. Muito querido pelos alunos, especialmente os integrantes do curso de Medicina Veterinária, Bacharel também criou uma relação especial com o ambiente universitário. Sempre que encontra uma oportunidade — e uma porta aberta de acesso aos ambientes de estudos do Instituto Hospitalar Veterinário — não perde a chance de dar uma “escapadinha” para espiar as classes e interagir com os alunos. Em certas ocasiões, Bacharel participa de momentos junto às turmas do Bloco 46. Sua presença e curiosidade já fazem parte da rotina do espaço, com o cuidado e o respeito à dinâmica das atividades de salas de aula. Entre uma visita e outra, recebe carinho dos estudantes e o retribui como quem parece ter entendido que também faz parte daquela comunidade. “No geral, ele é bem obediente”, acrescenta Josiane, ao apontar uma de suas brincadeiras prediletas: correr com uma bolinha, semelhante às usadas em partidas de tênis, provocando as pessoas para tentarem tirá-la dele.
A espontaneidade de Bacharel conseguiu despertar, em seus “colegas humanos”, um senso de pertencimento. Enxergar em si e no outro as habilidades e os gostos que, muitas vezes, esquecemos de aplicar e demonstrar no cotidiano atribulado de ideias, trabalho e estudos. Sem a necessidade de postergar compromissos, ajuda a imprimir um novo olhar, mais humano e com a esperança de que as coisas, por mais difíceis que possam parecer, têm sua forma de dar certo.

“Talvez exista outro significado ainda mais especial nessa história: o pertencimento de Bacharel também foi construído”, considera Josiane. Se hoje ele leva alegria, aproxima pessoas e transforma a rotina de quem encontra pelo caminho é porque encontrou, igualmente, um lugar, onde pôde se sentir seguro e acolhido. Bacharel brinca e explora os espaços da Universidade, distribuindo afeto por onde passa. Como reforça Josiane, o cãozinho, que estima-se ter em torno de dois anos, parece devolver todo o carinho recebido às pessoas que encontra.
“No cuidado com ele, vemos o zelo que precisamos ter com a gente. Cuidar também transforma”, pondera Josiane, em uma alusão ao princípio que norteia a gestão 2026–2030 da UCS: Cuidar para Pertencer, Pertencer para Transformar. “Como tutora e até na direção do IHVET, Bacharel foi um grande aprendizado, pois me ensinou que cuidar é muito mais que tratar feridas: é oferecer segurança, tempo, respeito e amor até que um coração volte a confiar. E ele retribui tudo o que oferecemos, devolvendo em dobro, todos os dias”, complementa Renata Demori, orgulhosa do pequeno ser de quatro patas, como o serelepe cãozinho também é reconhecido. “Ele nos faz lembrar que o amor cura, transforma e salva.”
Fotos: Bruno Zulian
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